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Alexandre de Moraes, a nova Mãe Dináh

Para escrever este artigo, puxei da memória a figura de Benedicta Finazza, ou Mãe Dináh, como era conhecida uma famosa e prestigiada vidente dos anos noventa. Ela se autointitulava terapeuta holística, sensitiva e intuitiva com percepção extrassensorial. Seu destaque se devia às suas previsões sempre certeiras. É o caso do mais novo vidente do pedaço: o Ministro golpista da Justiça, Alexandre de Moraes. Ele ainda não tem registro no Sindicato dos Terapeutas Holísticos (Sinte), que Mãe Dináh detinha, mas iniciou bem na nova profissão de pitonisa e já acerta todas.

O acidente de avião que levou à morte os componentes da famosa banda brasileira Mamonas Assassinas em 1996 foi uma das previsões que deu destaque a Mãe Dináh. Entretanto, a previsão explicitada no último domingo pelo visionário Ministro Alexandre de Moraes foi ainda mais extraordinária. Ele previu, com antecedência de 24 horas, que aconteceria a 35ª fase da Operação da Lava Jato, denominada Omertá, e que os moradores de Ribeirão Preto, cidade do interior paulista, iriam lembrar muito dele. De fato, a prisão, na operação, do ex-ministro Antônio Palocci, com carreira política na região, foi motivo para isso.

A previsão foi incomparável, pois foi comunicada de forma teatral na terra do mais famoso alvo desta fase da operação. A repercussão foi muito grande. Vamos à previsão: em conversa com correligionários do PSDB, o Ministro faccioso da Justiça afirmou, de forma peremptória, que “esta semana vai ter mais, podem ficar tranquilos. Quando vocês virem esta semana, vão lembrar de mim”. Acertou em cheio e com todas as letras.

A Polícia Federal, em nota, informou que não comunica ao Ministério da Justiça as operações, o que de certa forma reforça ainda mais o dom de vidente de Moraes. A verdade é que a PF é subordinada ao Ministério da Justiça e o Ministro é alertado sobre a realização de operações mas, teoricamente, não teria acesso ao caráter da ação. A declaração do Ministro gerou ainda mais desconfiança porque a prisão de Palocci foi a primeira solicitada pela PF e não pelo Ministério Público Federal. Começamos a observar que o Ministro é um embuste de pitonisa, pois tudo indica que ele foi informado com antecedência.

Não precisa ser Mãe Dináh para vaticinar e até já constatar que está em curso no Brasil a implantação de um regime autoritário e discricionário desde o golpe do impeachment da presidente Dilma. Estamos caminhando a passos largos para um regime de exceção. Os golpistas trabalham de forma articulada com a grande mídia, os tubarões do empresariado e os partidos reacionários para implantar uma política de perseguição e medo aos adversários.

Voltando ao vidente e astro das previsões, afirmo que devemos exigir uma apuração rigorosa da Procuradoria Geral da República e do Executivo acerca do fato ocorrido. Apesar do fato grave, o presidente Temer não teve coragem de demitir o Ministro visionário, tendo o governo avaliado que seria uma confissão de culpa oficial. O mais estarrecedor é que, nos governos passados, os ministros anteriores não tinham esse dom de adivinhar operações sigilosas, que diga o Ministro Cardoso, do governo Dilma, tão malhado pela sua postura ética de atuar.

O caso me fez também recordar a novela “O Astro”, de Janete Clair, que foi ao ar em 1977. A trama se estruturava em torno da ascensão social do personagem Herculano Quintanilha (Francisco Cuoco), que era mágico e vidente. A história envolvendo Herculano era baseada na trajetória do ex-ministro do Bem Estar Social da Argentina, Luiz Lopez Rega, conhecido como “El Brujo”, influente membro da administração do ex-presidente Perón. Sugiro que nosso ministro, depois da sua exoneração, ocupe, em uma nova versão, um posto no elenco, contracenando com Salomão Hayala (Dionísio Azevedo) e seu filho Márcio (Tony Ramos). Alexandre de Moraes é um artista. Devemos só mudar o nome da novela para “O Golpe”.

*Arruda Bastos é médico, professor universitário, ex-Secretário da Saúde do Estado do Ceará e um dos coordenadores do movimento “Médicos pela Democracia”.

pab

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