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PEC 241, o banquete e o burro quando foge

A PEC 241, o banquete e o burro quando foge.
Por *Arruda Bastos

Até visualizar na imprensa as fotos do mega banquete de Temer no Palácio da Alvorada, eu não estava com a menor disposição para escrever sobre tão repugnante e bizarro evento. Com as imagens e mais a aprovação em primeiro turno na Câmara dos Deputados da PEC 241, ou como é intitulada a “PEC da morte”, passei a sentir calafrios, uma revolta incontrolável e a ânsia de tornar minha opinião pública.

O Alvorada durante a festa da rainha Marcela virou um castelo monárquico com todos os seus personagens, incluídos o rei, a rainha, os asseclas e os bobos da corte como hoje denomino os deputados da base do governo. Bobo da corte, bufão, bufo é o nome pelo qual era conhecido o “funcionário” da monarquia escalado para entreter o rei, a rainha, a corte e fazê-los rirem. Esta poderia ser uma obra de ficção. Qualquer semelhança com nomes, pessoas, fatos ou situações da vida real seria mera coincidência. O pior é que não é, o fato aconteceu em Brasília há poucos dias.

A aprovação da PEC 241 é um crime hediondo, como escrevi em artigo anterior, e o governo comemorou antecipadamente, com um jantar digno de marajás, a falência da saúde pública, da educação e dos programas sociais. O prato principal da macabra festa foi o congelamento por vinte anos dos recursos públicos que afetam diretamente as camadas “menos favorecidas” da nossa população. Só mesmo um governo ilegítimo para patrocinar atos indigestos como esses. Como não tenho estômago suficiente para ir até o fim do meu artigo falando do banquete, vou tergiversar e incluir algumas expressões na minha crônica.

Avaliando a falta de discussão com a sociedade, a rapidez de todo o processo para aprovação da PEC 241, as manobras para, em tempo recorde, ela ser votada e todo o trabalho orquestrado pela mídia golpista para ludibriar a população com entrevistas falaciosas a favor da emenda, isso tudo junto me fez lembrar da expressão “cor de burro quando foge”. A frase original era “corra do burro quando ele foge”, pois o dito animal enraivecido pode ser muito perigoso. A expressão foi sendo modificada pela oralidade com o tempo e “corra” acabou virando “cor”. Para os atuais usurpadores do poder ficaria melhor “corra com as reformas enquanto o povo está iludido”.

Várias espécies de animais se transformam quando ameaçadas. A capacidade de mudar a cor é um poder animal e às vezes alguns podem alterar sua aparência de forma radical para se misturar com o ambiente. O camaleão muda de cor; o polvo solta uma tinta que funciona como camuflagem. Não é esse o caso do burro. É sim o de um governo rentista e usurpador existente hoje no Brasil. Ele utiliza de todos os meios para camuflar e implantar uma política de redução de investimentos sociais e de eliminação de direitos trabalhistas e previdenciários.

Portanto, antes que “Inês esteja morta” que é outra expressão que introduzo no meu artigo, vamos articular nossa resistência e reverter o que parece inevitável, que é a aprovação da “PEC da morte”.

De origem da língua portuguesa, a expressão citada acima significa “não adianta mais” e hoje é usada para justificar a inutilidade de certas ações. A frase completa é “Agora é tarde, Inês é morta”. Mas quantas vezes nós já não coroamos nossa Inês por falta de atitude? O Povo distraído e mal informado desiste da luta. Cabe a todos estimular o confronto com o governo, com os grandes empresários, não comprometidos com o social, e com a mídia golpista.

O que nem todos conhecem é a origem da expressão. Em várias obras literárias, desde Fernão Lopes, passando por Sá de Miranda e chegando à Camões, encontra-se a história da infeliz Inês de Castro. Ela era amante de D. Pedro, antes deste ser rei de Portugal. Inês era Dama de companhia de D. Constança, esposa de D. Pedro. Como filha bastarda de um cavaleiro galego, e com irmãos partidários da reanexação de Portugal pela Espanha, tinha o rei D. Afonso IV como adversário. Quando Dona Constança morreu, D. Pedro foi mandado para a guerra e Inês de Castro julgada sumariamente e condenada à morte sendo então degolada.

D. Afonso morreu dois anos depois e Dom Pedro, seu filho e príncipe herdeiro, foi coroado, propiciando, assim, sua vingança. Mandou de imediato executar todos os participantes do julgamento de Inês. Em seguida, ordenou que fossem trazidos seus restos mortais para o palácio para ser coroada rainha. Assentada no trono, todos da corte foram obrigados a desfilar perante ela para o beija-mão. Todavia a coroação não fazia mais sentido prático, uma vez que agora Inês já estava morta. A coroa chegou atrasada.

Não podemos esperar dois anos para o troco nas urnas. Temos que, de imediato, formar nossa resistência contra tudo que está sendo implantado no Brasil. Conclamo, pois, os sindicatos, associações, partidos progressistas, trabalhadores e o povo do nosso país para, de forma organizada, alistar-se em uma jornada de luta constante contra os golpistas. Lutar contra o Golpe também é cultura! Fora Temer!

*Arruda Bastos é médico, professor universitário, escritor, radialista, ex-secretário da saúde do Estado do Ceará e um dos Coordenadores do Movimento “Médicos pela Democracia”.



pab

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