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Arruda Bastos: minha experiência em Cuba e o legado de Fidel

Observando na imprensa e nas redes sociais a repercussão da morte do grande líder da revolução cubana, Fidel Castro, fiquei entristecido com a desinformação de muitos que teimam em passar para nossa sociedade uma imagem distorcida do que realmente acontece naquela ilha.

Resolvi, então, escrever acerca da minha experiência e dos estudos que realizei durante anos sobre a qualidade de vida dos cubanos.

Para não ficar só na teoria, vou relatar também nesse artigo uma viagem que fiz a Cuba, como membro de uma missão oficial do governo brasileiro, no período em que ocupava os cargos de Secretário da Saúde do Estado do Ceará, e Vice-Presidente do Conselho Nacional dos Secretários de Saúde (CONASS), em setembro de 2011.

Digo, preliminarmente, que o pioneirismo do Ceará na estratégia Saúde da Família, implantada em 1994, e a estadualização em 2008 dos Agentes Comunitários de Saúde foram destaques em encontro que tive, na época, com o Ministro da Saúde Pública de Cuba, Roberto Morales Ojeda. A semelhança entre o Ceará e Cuba fica muito evidente quando se conhece de perto e compara a atenção básica do nosso Estado com a terra de Fidel, guardadas as devidas proporções.

A missão do Ministro da Saúde tinha como finalidade reforçar e ampliar as parcerias de cooperação bilateral, envolvendo pesquisa, desenvolvimento e produção de medicamentos. Para o Ceará, a finalidade era captar conhecimentos, recursos técnicos e firmar parcerias voltadas para o Polo Tecnológico da saúde e uma unidade da Fiocruz, que estavam em construção no Ceará, no município do Eusébio. Conheci também a experiência cubana com sua rede de Policlínicas Regionais, modelo que implantamos no Ceará através da gestão dos Consórcios públicos de saúde Regional.

A missão brasileira foi a mais dois Ministérios cubanos: Ministério da Ciência, Tecnologia e Meio Ambiente e Ministério do Comércio Exterior e Investimento Estrangeiro. Visitei ainda dois centros de ciência e saúde: Centro de Engenharia Genética e Biotecnologia e Centro de Imunologia Molecular. Neste, conferi a produção de vacinas contra várias doenças, entre elas hepatites, e de medicamentos de alta complexidade para tratamento de câncer e outras enfermidades graves, crônicas e ainda para uso de pacientes transplantados. Tudo de última geração e produzido na ilha de Fidel.

As universidades também entraram no roteiro da missão. Visitei a Escola Latino-Americana de Medicina de Cuba, estive em reunião com o reitor Juan Carrizo, de saudosa memória, e com mais 31 estudantes cearenses.  A ELAM recebe alunos de toda a América Latina com o objetivo de fazê-los retornar, depois de formados, às suas comunidades de origem, para atuar como médicos. Os estudantes são bolsistas do governo cubano e tem garantia de material didático, moradia e alimentação. Senti a satisfação de todos que estudavam naquela instituição. Uma grande contribuição do regime cubano para a saúde pública em vários países do mundo.

Contra os fatos não há argumentos. Contra os números não se pode contestar: Cuba tem as melhores taxas e números da América Latina e alguns até do mundo. O IDH é o segundo melhor da América Latina; tem o melhor sistema educacional também; a OMS (Organização Mundial da Saúde) considera o sistema de saúde cubano um modelo para o mundo; a indústria de biotecnologia do país é tão avançada que diversos países desenvolvidos  buscam Cuba em razão de medicamentos e vacinas; Cuba é o um dos país menos violento do mundo, com 4,2 homicídios por 100 mil habitantes, enquanto no Brasil a taxa é de 25,2 por 100 mil. Na educação, a taxa de alfabetização na ilha chega a 99,9% e a taxa de desemprego tem variado entre 1 e 3% nos últimos anos.

Outros números que impressionam: o país foi um dos poucos da América a registrar crescimento econômico, variando entre 1 e 12%; é o único país da América Latina com 0% de desnutrição infantil. Possui o maior número de leitos hospitalares por habitante da America, 5,9 por 1.000 (o Brasil possui 2,4); a melhor expectativa de vida da América Latina, 79 anos; uma das menores taxas de mortalidade infantil do planeta, 5 para cada 1.000 nascimentos (no Brasil é 12). A taxa mais alta de médicos por habitante da América Latina, 1 para cada 160 habitantes. O Brasil tem 1 para cada 500 habitantes.

A despeito do rigoroso bloqueio econômico imposto pelos americanos, Cuba apresenta  todo esse destaque na saúde, educação, emprego, tecnologia e distribuição de renda. Comprovei in loco que o seu povo é alegre, gentil, consciente, digno e altivo. Fidel deixa, sem dúvida, um grande legado, não só para sua gente, mas também para todo o mundo. Fidel Castro foi um “visionário” e buscou também uma América Latina unida e forte. Fidel partiu na noite desta quinta-feira (25), aos 90 anos. Dedicou a vida a lutar pela liberdade, pela soberania e trabalhou com afinco para reduzir as desigualdades e promover a justiça social.  Por isso “Hasta siempre, Fidel!”

Arruda Bastos é médico, professor universitário, escritor, radialista, ex-Secretário da Saúde do Estado do Ceará e um dos coordenadores do Movimento Médicos pela Democracia.

pab

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