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Arruda Bastos: A carne é fraca; o ego é grande; mas insignificante, não!

Depois de passados alguns dias da divulgação da operação “Carne Fraca”, agora analisando seus diversos aspectos e sua repercussão nacional e internacional, tenho certeza que tem algo debaixo dos panos que ainda não está totalmente claro.

A denúncia da operação é grave e, independente de erros na sua divulgação pela Polícia Federal, não podemos minimizá-la. Temer, em reunião com empresários, taxou a operação da PF de insignificante. A afirmação é descabida, até mesmo porque ainda não se tem sua total/real dimensão, tampouco a apuração dos diversos danos causados à saúde pública.

Avaliando a postura da Rede Globo, lembrei-me de uma afirmação do grande brasileiro Leonel Brizola: “quando vocês tiverem dúvidas quanto a que posição tomar diante de qualquer situação, atentem… Se a Rede Globo for a favor, somos contra. Se for contra, somos a favor!”. Ela tem se posicionado claramente ao lado das empresas.

Embora leve em consideração os textos publicados abordando teses que são pertinentes, como a do interesse do mundo capitalista e, principalmente, dos americanos em dominar o comércio da carne; da teoria de que tudo não passa de uma cortina de fumaça para facilitar a aprovação de medidas contra o povo, entre outras, digo que sigo o entendimento de Brizola.

Não podemos aceitar como insignificante uma operação que apurou, através de laudos, a comercialização e a utilização de carne estragada e vencida na produção de embutidos, que desbaratou uma máfia de empresas e funcionários do Ministério da Agricultura envolvidos em corrupção e que até flagrou o atual Ministro da Justiça em ligação telefônica suspeita.

A cada dia que passa, fico mais impressionado com a desfaçatez do governo. Atitudes como a ida de Temer e de embaixadores a uma churrascaria de carne importada, como as declarações de que os frigoríficos investigados só exportam na casa de 1% do volume total produzido, e muitas outras artimanhas, foram meticulosamente adotadas para tentar minimizar a gravidade dos fatos.

Agora vejamos, se os frigoríficos investigados exportam 1% de sua produção e os outros 99% são comercializados no Brasil, tem-se a trágica constatação de que estamos consumindo carne imprópria, vencida e embutidos com graves riscos à saúde. Para o governo, isso é só um detalhe, pois não li um comentário a respeito.

A churrascaria Steak Bull, utilizada por Temer e embaixadores, é uma das mais afamadas e caras de Brasília. Ela não serve carne bovina brasileira, só trabalha com corte europeu, australiano e uruguaio, fato confirmado por funcionários e que consta no seu cardápio. O regabofe custou na casa de 14 mil reais. Que tal um churrasco na laje ou um espetinho no próximo jogo no Castelão?

O governo deve explicar aos brasileiros como estes órgãos de fiscalização do Ministério da Agricultura foram parar nas mãos de partidos políticos e como os fatos apurados na operação “Carne Fraca” passaram despercebidos durante muitos anos. Deve também apurar e punir rigorosamente os envolvidos e não esquecer do ego extremo que hoje assola as hostes da Polícia Federal, essa espetacularização é imprópria para quem deve agir com imparcialidade e moderação.

Arruda Bastos é médico, professor universitário, membro da Sociedade Brasileira de Médicos Escritores, radialista, ex-secretário da Saúde no Estado do Ceará e um dos coordenadores do Movimento Médicos pela Democracia.

Arruda Bastos
Médico, professor universitário dos cursos de Medicina e Enfermagem, especialista em Gestão em Saúde e Saúde Pública, escritor, radialista, ex-Secretário da Saúde do Estado do Ceará e coordenador do Movimento Médicos pela Democracia.
http://www.portalarrudabastos.com.br

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