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Régis Barros: Aonde se localiza a psiquiatria?

Há inúmeras brincadeiras e ironias com a psiquiatria. Uns falam que ela cuida dos “loucos”, alguns dizem que o psiquiatra não é médico e outros procuram menosprezá-la pela lógica biológica da neurociência. Diante disso e dessas expressões ora anedóticas, ora preconceituosas, é importante responder um questionamento: qual a localização da psiquiatria?

A verdadeira psiquiatra representa uma vanguarda de uma medicina admirável. Essa medicina era respeitada não, somente, pelas suas descobertas, mas também pela atuação do médico. Um grande equívoco surge na análise da medicina, pois o que valoriza a medicina não é a sua capacidade de cura, mas sim a sua capacidade de escuta, carinho, amor e de cuidado. É isso que faz da medicina algo maior. Muitas vezes, a cura não é algo alcançável, mas o conforto, o respeito e o afeto sempre deverão estar presentes, pois, sem eles, a medicina não existe. Essas identidades são capazes de transformar a medicina em algo belo e humano ou numa atividade fria e mercantilista. A presença delas mantém a medicina viva, mas a sua ausência enterrará a arte médica na sua essência.

Diante disso, a verdadeira psiquiatria alimenta essa medicina descrita acima, pois é impossível exercer uma psiquiatria na sua essência sem transcender a própria medicina. A função do psiquiatra vai além do conhecimento médico o qual é fundamental para a sua tarefa. Não é aceitável encontrar uma psiquiatria incapaz de escutar, interagir, compartilhar, dividir e se envolver. Qualquer psiquiatra precisa ter isso incorporado na sua prática independente dele saber medicina em demasia. Eis a questão: a medicina, obrigatoriamente, solicita que o médico ultrapasse a própria barreira da medicina, beba de outros conhecimentos e incorpore outras habilidades que extrapolem o diagnóstico e a propedêutica médica.

A carência de tudo isso enfraquece a própria medicina. O paciente, salvo as exceções, sempre que bem cuidado, confia no seu médico e o referencia com deferência. Contudo, na ausência da medicina humana, o médico passa a ser visto de forma enviesada e, por vezes, o confronto será inevitável. Por isso, a psiquiatria, quando exercitada de forma adequada, ainda representa um respirar da medicina.

Então, numa analogia militar, eu afirmo que a psiquiatria está localizada na infantaria da medicina romântica. A psiquiatria luta, numa guerra ingrata, para provar que a medicina humana é a única a ser aceita.

(*) Imagem do arquivo pessoal de Nise da Silveira

Régis Eric Maia Barros

Régis Eric Maia Barros
Médico psiquiatra, Mestre e doutor em saúde mental pela FMRP-USP e membro do Movimento Médicos pela Democracia.

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