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Régis Barros: A célula neoplásica teme a vida

Ontem, eu atendi uma paciente deprimida e a sua depressão tinha causa material. Há algumas semanas ela tinha recebido o diagnóstico de uma neoplasia. A sua estrutura emocional foi abalada. O medo do futuro tomou conta dela. A sensação de impotência e fragilidade, frente àquela situação angustiante, foi gradativa. Ela me procurou para tratar a depressão. Portanto, ela queria um remédio para confrontar a tristeza, o desânimo, a insegurança, a falta de energia, a ansiedade e o pouco sono. Claro que ela saiu da minha consulta com uma prescrição farmacológica, mas isso seria muito pouco. Era preciso motivá-la para o tratamento já que eu havia percebido a pouca motivação dela, inclusive, para a vida. Bem no rodapé do mapa das medicações, eu escrevi: “a célula neoplásica teme a vida, então viva”. A paciente leu aquela mensagem bem direta e direcionada e manteve, por alguns instantes, o seu foco da visão naquele pequeno trecho. Antes que ela saísse, eu me antecipei e falei:

“Costumo perceber que, ao receberem um diagnóstico desse, muitos acabam por se entregar. De fato, é natural o choque inicial e a paralisação provocada pelo medo. No entanto, o desejo de continuar é um sustentáculo para a vitória. Certamente, será uma jornada difícil e intensa, todavia poderemos, sem dúvidas, vencê-la. Aquele que se esquiva de lutar e de viver promove força para célula neoplásica. Ela é sorrateira e fica esperando por isso. Por outro lado, mesmo com esse diagnóstico, quem vive e continua vivendo amedronta a célula neoplásica. Ela teme o desejo de viver. Ela se assusta com a nossa vontade de aproveitar esse mundo. Ela é medrosa e o seu medo fica aguçado quando a nossa gana pela vida se evidencia. Nessa trajetória, poderá haver indicação de cirurgia, quimioterapia e radioterapia. Tudo isso é importante, mas o fundamental é perceber que poderemos vencer esse momento e que deveremos querer viver. Em suma, viva e viva intensamente. Viva por todos os dias. Viva em todos os dias. Não pense no fim, mas, simplesmente, viva. Ficar pensando no fim é uma forma de ofuscar o viver do presente. Aquilo que não for proibido é permitido. Ou seja, desde que não exista contra-indicação terapêutica ou limitação da sua parte, faça tudo que quiser. Viaje, dance, beije, chore, cante, namore e viva. Quando você notar, as células neoplásicas murcharão e desaparecerão ou ficarão quietas e acuadas com medo da sua força vital. Preciso que você queira continuar vivendo e que continue a querer viver. Não sei se você gosta do Teatro Mágico, mas, independente disso, citarei um trecho de uma música chamada Perdoando o Adeus. Portanto, a vida anuncia que renuncia a morte, dentro de nós”.

A paciente saiu com a sua prescrição farmacológica, embora eu acredite que, nesse caso, a medicação, pelo menos em termos psiquiátricos, não represente o primordial. Ficarei torcendo para que ela aceite esse meu chamamento e exalte o seu desejo de viver.

Régis Eric Maia Barros é médico psiquiatra e mestre e doutor em saúde mental

Régis Eric Maia Barros
Médico psiquiatra, Mestre e doutor em saúde mental pela FMRP-USP e membro do Movimento Médicos pela Democracia.

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