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Arruda Bastos: O Vozão e meu netinho pé-quente

Nasci em uma família alvinegra e desde cedo passei a amar e conhecer as glórias do Mais Querido. O time do povo, o vovô, ou como é mais conhecido recentemente, o Vozão, sempre foi uma das minhas paixões. Na infância e adolescência, não dispensava nem treino coletivo nas sextas-feiras no nosso Estádio Carlos de Alencar Pinto, a conhecida ilha das cobras.

Desde a década de 1960, venho acompanhando a gloriosa trajetória do Campeão da Popularidade e hoje, como o meu time de coração, sou também chamado de vovô. Na semana passada, acompanhado das minhas filhas Lívia e Lia, bem como dos meus genros Evalto e Gerardo, levei, pela primeira vez, meus queridos netinhos, Letícia e Levi, para a Arena Castelão. Foi a oportunidade de introduzi-los na mística daquelas camisas.

Nos meus 62 anos bem vividos, presenciei a maioria dos nossos grandes triunfos. Parte dos 44 títulos estaduais, os cobiçados campeonatos do Torneio Norte-Nordeste de 1969 e da Copa do Nordeste de 2015, esta conquistada de forma invicta, além de centenas de outras grandes e inesquecíveis vitórias.

O Ceará é dono da melhor campanha de um clube cearense na Copa do Brasil, com o vice-campeonato em 1994, jogo que ficou marcado pelo pênalti não marcado pelo assoprador de apito Oscar Roberto de Godoy contra o Grêmio. No Campeonato Brasileiro da Série A de 1985, ficou em 7° lugar, além de ser detentor de uma enorme coleção de troféus.

O meu time de coração, assim como dos meus filhos, netos e de grande parte dos cearenses, é o único do estado e um dos poucos do Brasil a nunca ter participado da Série C do Campeonato Brasileiro. É também sempre destaque e comprovado campeão de público e rendas. Sem dúvida, nos dias atuais, é um dos mais organizados, queridos e importantes clubes de todo o Brasil.

Voltando ao passado, recordo do meu tempo de frequentador assíduo de treinos, de jogos no Presidente Vagas, no Castelão e em inúmeros outros estádios que compareci no interior do estado e em todo o Brasil. Sempre acompanhava o meu glorioso time com bandeira e camisa alvinegra. Hoje, como um lindo filme, o Ceará faz parte indelével das minhas emoções gravadas na memória.

Quem da minha geração não lembra dos gols do nosso maior artilheiro, Gildo Fernandes de Oliveira, de Sérgio Alves e Magno Alves, das defesas memoráveis de Aloísio Linhares, Ita e atualmente de Everson e muitos outros grandes goleiros, dos saudosos Alexandre, Artur, Carlindo e outros grandes defensores? Recordo também de Epaminondas Victor, dos irmãos Da Costa e por que não de Tiquinho, o herói do tetra cearense em 1978.

Ficando na final de 1978, vem-me à mente o inesquecível jogo contra o Fortaleza, em 20 de dezembro. Esse dia ficou marcado pelo primeiro tetra do Vozão e pela missa de formatura da minha amada esposa Marcília. O inusitado foi naquela noite sair da igreja do Pequeno Grande correndo para o Castelão. Na época, o meu fusquinha 69 além de vazar óleo e não ter um bom freio, deixou-me na mão com a bateria descarregada, próximo do Estádio. Só nos restou, então, continuar a pé e abandonar o carro ao relento. Tudo pela minha paixão!

Tenho inúmeras outras recordações dessa minha trajetória de fiel torcedor do Vozão, principalmente de um passado distante quando minha saudosa mãe esperava acordada que eu chegasse para abrir a porta da casa depois dos jogos noturnos. Lembro daquele seu sorriso quando ganhávamos e do consolo nas derrotas com o tradicional “é isso mesmo, vamos pra próxima”. Ela sempre escutava aos jogos e aos comentários de Paulino Rocha no seu radinho de pilha.

Aqui em casa, devo confessar, tenho dois torcedores do nosso maior adversário. Com uma, convivo já há mais de quarenta anos: minha querida Marcilia. O outro, meu genro Raul, esposo da minha filha caçula, Lilia, também torcedora do Vozão. Temos uma excelente relação futebolística, pois sempre secamos o rival de forma discreta e silenciosa. O respeito é fundamental e desde criança meu pai dizia um ditado que se tornou uma prece: Política, Religião e Futebol não se discute.

Digo que a última conquista sempre é a mais importante e o motivo da minha crônica de hoje é para louvar e parabenizar o Glorioso Vozão pela sua ascensão à Série A do Campeonato Brasileiro. Foi uma maravilhosa campanha e o terceiro lugar no campeonato demonstra, de forma inconteste, o resultado final. Parabéns aos dirigentes, aos atletas, ao treinador, à comissão técnica e, principalmente, à nossa torcida pelo apoio incondicional e pelos recordes sucessivos de público.

Para terminar, fica a constatação que meus netinhos, Letícia e Levi, já podem ser considerados pés-quentes e, como tal, vou antecipando para seus pais, Lia e Gerardo, que em 2018 eu vou levar para a Arena Castelão os novos amuletos do Vozão na maioria dos jogos da primeira divisão.

Hino do Ceará: https://www.youtube.com/watch?v=Lv2ohMRy9oE

Arruda Bastos é médico, professor universitário, ex-secretário da Saúde do Ceará, Membro da Sociedade Brasileira de Médicos Escritores, radialista e um alvinegro de quatro costados.

Arruda Bastos
Médico, professor universitário dos cursos de Medicina e Enfermagem, especialista em Gestão em Saúde e Saúde Pública, escritor, radialista, ex-Secretário da Saúde do Estado do Ceará e coordenador do Movimento Médicos pela Democracia.
http://www.portalarrudabastos.com.br

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