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Diário de uma quarentena (9º dia) Uma odisseia na terra dos vírus gigantes.Por Arruda Bastos

Diário de uma quarentena (9º dia)
Uma odisseia na terra dos vírus gigantes

No dia de hoje, após nove dias de quarentena sem colocar nem o pé fora do apartamento, resolvi, graças aos pedidos da Marcilia, aproveitar a bela tarde de sol desse sábado para nos vacinarmos contra a gripe. Pesquisamos e escolhemos para isso o estacionamento do Shopping Rio Mar Papicu, aqui em Fortaleza. O sistema drive thru, implantado para vacinação sem sair do carro, pareceu-me seguro.

Os preparativos para descer do apartamento e pegar o beco rumo ao Shopping lembrou a música “Tudo OK”, sucesso da cantora Mila, muito executada no último carnaval. A letra diz: “É hoje que ele paga todo o mal que ele te fez / Cabelo ok, marquinha ok, sobrancelha ok, unha tá ok / Brota no bailão pro desespero do seu ex / Se ele te trombar vai se arrepender / Uma bebê dessas nunca mais ele vai ter”.

Para a odisséia, tomamos banho, pegamos as máscaras, o álcool em gel, lenços descartáveis e tratamos de limpar os bolsos e as carteiras, só levando mesmo nossas identidades. Fundamentais, pois, depois que tirei a barba, poderia ser confundido com um broto, e Marcilia, com a quarentena, cada vez fica mais bela e jovem.

Depois de passar pela barreira do elevador usando muito álcool em gel nos botões e na porta, chegamos ao nosso bunker. Ao entrar, nova esterilização agora do volante, na marcha e em outras partes do painel. Ao ligar o carro, observei que o combustível estava na reserva. Lá foi mais estresse com a necessidade de abrir o vidro no posto, passagem do cartão na maquineta e digitação da senha. Novamente uma chuva de álcool em gel.

Não sei bem o motivo de, no caminho, lembrar do seriado “Terra de gigantes” que foi exibido na televisão brasileira por volta de 1968. Na época, eu era um rapaz e me recordo do enredo. A série mostrava a tripulação de uma nave espacial chamada Spindrift que, durante uma viagem de Los Angeles até Londres, entra numa dobra espacial e cai num planeta onde todos os habitantes são gigantes.

Na “viagem” ao nosso destino também recordei do filme “Uma Odisseia no Espaço”, exibido em 2001, e que tratava de uma missão espacial rumo ao planeta Júpiter, em que os astronautas se vêem à mercê do computador HAL 9000, que controla a nave. HAL cometeu um erro, mas recusa-se a admiti-lo. Seu orgulho de máquina perfeita impede que aceite a evidência da falha. Por isso, para encobrir a própria e insuspeitada imperfeição, começa a eliminar os membros da equipe.

Digo que passamos mesmo por uma Odisseia no Espaço e que o nosso cuidado de não contrair o coronavírus justificou a lembrança da série “Terra de gigantes”, só que o medo agora é de seres microscópicos e não de gigantes, como no seriado. Os ditos gigantes, na conjuntura atual, somos nós.

Para terminar, digo que o nosso intento não foi alcançado, pois depois de esperarmos mais de duas horas na reta, recebemos a triste notícia de que a vacina tinha acabado. Só nos restou voltar, com o rabo entre as pernas, e planejar uma nova odisseia na terra dos minúsculos vírus amanhã.

Arruda Bastos é médico, professor universitário e presidente da Sociedade Brasileira de Médico Escritores – SOBRAMES – CE.

Arruda Bastos
Médico, professor universitário dos cursos de Medicina e Enfermagem, especialista em Gestão em Saúde e Saúde Pública, escritor, radialista, ex-Secretário da Saúde do Estado do Ceará e coordenador do Movimento Médicos pela Democracia.
http://www.portalarrudabastos.com.br

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