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Crítica: Freud (Netflix). Por Márcio Bastos

Em Freud, nova série da Netflix, o pai da psicanálise se torna protagonista de uma trama ficcional puramente escapista

 

Certa vez, assistindo uma aula sobre psicanálise, meu professor sugeriu que, entre tantas qualidades, Sigmund Freud tinha uma visão de marqueteiro. Exemplo disso está em uma de suas grandes obras, A Interpretação dos Sonhos, que traz o título perfeito para seduzir leitores. Ambicionando, assim como fazia o pai da psicanálise, atrair o maior número de pessoas, a Netflix lança sua nova série Freud. Uma jogada arriscada que, na tentativa de hipnotizar seu público, coloca o célebre médico psiquiatra dentro de um plot claramente interessado no entretenimento escapista.

Criada por Marvin Kren, Benjamin Hessler e Stefan Brunner, a série austro-alemã pesa a mão no absurdo. A sacada é trazer um produto mais pop e, para isso, transforma a história de Freud numa trama ficcional detetivesca levemente inspirada em sua vida que atira para vários lados, passeando por gêneros como suspense e terror. Sem muita sutileza na dosagem desses gêneros, o resultado revela dificuldades de encontrar seu público. Quem não conhece nada do médico pode ficar um tanto perdido em cenas descontextualizadas como a que ele aparece dentro de um delírio matando seu pai e fazendo sexo com sua mãe (caracterizando o Complexo de Édipo). Ao mesmo tempo, tende a frustrar conhecedores da obra de Freud que embarcam na jornada acreditando estar diante de uma série biográfica.

Passando-se em 1886, em Viena, ela traz o psicanalista ainda jovem, numa espécie de prequela de quem ele se tornaria no futuro. Esse recorte abre interessantes possibilidades de mostrar Freud dando os primeiros passos, mas seus autores estão mais interessados mesmo na farofada e não se prendem muito a precisões históricas. Em meio a desconfiança de colegas da área médica acerca de suas inovadoras descobertas, o Freud da série se envolve com a personagem Fleur Salomé (Ella Rumpf), uma belíssima mulher que revela ter poderes sensitivos, podendo estar na verdade apresentando um quadro de histeria.

Ella Rumpf (do cult francês Raw) por sinal é o grande destaque do elenco. A atriz surpreende por sua entrega à personagem que passeia entre o medo do que está vivendo e sua personificação como Táltos, uma espécie de entidade da mitologia húngara que a domina. O austríaco Robert Fisher, que faz o ainda inexperiente Dr. Sigmund Freud, já é mais apagado em sua atuação, mas encarna bem o médico determinado, e viciado – na vida real Freud realmente acreditava que a cocaína tinha efeitos terapêuticos, consumindo-a e indicando a pacientes –, convencendo numa suposta reconstituição de como ele poderia ter sido na juventude.

A série acerta ainda ao trazer uma incrível ambientação de época – o que por várias vezes me deixou com um gosto amargo pelo desperdício de ótimas locações (e figurinos) em uma narrativa tão cheia de clichês. A triste verdade é que seu roteiro possui alguns bons lampejos, mas no geral é realmente fraco. E ainda desperdiça tempo em subtramas desinteressantes, podendo explorar mais de seu rico protagonista.

É inegável que as descobertas do pai da psicanálise para a humanidade são inestimáveis. Sua obra certamente poderia render uma ótima série biográfica, a exemplo da antologia Genius do History Channel, que já trouxe temporadas com personalidades como Einstein e Picasso. Na série da Netflix, a escolha foi por ir na contramão disso tudo. Resta a seus criadores torcerem para que ela não caia no escuridão do inconsciente. Talvez assim ainda possa ter sua vida prolongada.

Texto publicado originalmente no site www.cosmonerd.com.br.

Márcio Bastos
Redator publicitário, graduado em Letras e devorador de filmes e séries desde menino véi.

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