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Diário de uma quarentena (16º dia). Farinha pouca, meu pirão primeiro

Diário de uma quarentena (16º dia)
Farinha pouca, meu pirão primeiro.
Por Arruda Bastos

No dia de hoje, acordei preocupado com as últimas informações dos telejornais da noite. Agora, quando chegamos à virada da primeira quinzena de nossa quarentena, as notícias oriundas do Ministério da Saúde não são nada alentadoras para São Paulo, Rio de Janeiro e Ceará.

A previsão é de muita dificuldade na atenção à saúde, nos leitos de UTIs e no número de profissionais aptos para atuarem na linha de frente de combate à pandemia. Aqui no Ceará, a minha esperança é de que as medidas de isolamento social implantadas precocemente pelo governo possam reverter as expectativas oficiais.

A inspiração da crônica de hoje veio da minha esposa que, logo cedinho e ainda se espreguiçando, falou baixinho que estava preocupada com a família e principalmente com os seis médicos que temos. Tentei, na mesma hora, argumentar que, tirando o vovô aqui, todos são jovens e vão saber se cuidar.

Digo que não logrei êxito no meu intento, pois logo no jornal matinal as informações de que o número de profissionais de saúde contaminados crescia vertiginosamente deixou-a ainda mais tensa. Ela chegou mesmo a dizer que os médicos e os outros profissionais não deviriam trabalhar sem proteção, o que é uma verdade.

Levando em conta todos os dados no Brasil e a experiência internacional por onde a epidemia passou, a preocupação da minha esposa procede. A falta de profissionais e equipamentos de proteção é gritante e, para complicar, a atitude do governo americano de impedir que insumos cheguem ao Brasil e a outros países é criminosa.

No início da tarde, para piorar, li no Twitter que o Departamento de Estado dos Estados Unidos publicou em seu site um comunicado em que convoca médicos e enfermeiros estrangeiros a trabalharem no país no tratamento do coronavírus em troca de um visto de permanência, que pode se estender por até 07 anos.

A notícia é revoltante e prova que os EUA está tentando cooptar médicos e enfermeiros de países que já estão sofrendo com a pandemia e podem até ficar sem profissionais qualificados. A falta de mão de obra, testes e equipamentos de proteção compromete a capacidade dos profissionais e reduz as equipes em todo o mundo.

Os EUA, com as últimas medidas de redirecionar para si mesmos um conjunto de respiradores e máscaras que tinham como destino original o Brasil e a Alemanha, comete um ato de “pirataria moderna” e a convocação de médicos estrangeiros é uma forma torpe e cruel de tratar a pandemia.

Para concluir, e como forma de conter um pouco a minha indignação antes de terminar a crônica de hoje, fui ouvir duas músicas de Bezerra da Silva. A primeira foi “Malandro é Malandro e Mané é Mané”. Aí considero que os EUA são o Malandro e o Brasil é o Mané. E a segunda foi “Meu pirão primeiro”, que diz: Se a farinha é pouca, meu pirão primeiro, que é uma atitude típica de quem não tem a menor empatia. Acredito que com o presidente Obama tais fatos não estariam acontecendo. Por hoje chega!

Amanhã eu volto com uma nova crônica.
Este foi o dia nº 16. #FiquemEmCasa
Arruda Bastos é médico, professor universitário e presidente da Sociedade Brasileira de Médicos Escritores (SOBRAMES-CE)

Arruda Bastos
Médico, professor universitário dos cursos de Medicina e Enfermagem, especialista em Gestão em Saúde e Saúde Pública, escritor, radialista, ex-Secretário da Saúde do Estado do Ceará e coordenador do Movimento Médicos pela Democracia.
http://portalarrudabastos.com.br

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