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Diário de uma quarentena (22º dia) Macambúzio e sorumbático com as lembranças da Sexta-feira Santa

Diário de uma quarentena (22º dia)
Macambúzio e sorumbático com as lembranças da Sexta-feira Santa
Por Arruda Bastos

Chegamos à Sexta-feira Santa e as notícias da pandemia continuam a preocupar. Fortaleza agora ocupa a primeira posição entre as cidades brasileiras com maior incidência da doença por 100.00 mil habitantes. A minha esperança continua sendo nos efeitos benéficos do isolamento social e o achatamento da curva com o retardo do pico da doença.

Durante o dia, tentei manter a rotina, mas confesso que não consegui. A Sexta-feira Santa, desde que eu me entendo por gente, sempre me deixou macambúzio e sorumbático. Quando criança, principalmente à tarde, não dispensava ficar isolado, deitado no banco da Kombi do meu pai, trancado e com um radinho de pilha a escutar pela rádio Uirapuru a exibição da radionovela “A Vida de Nosso Senhor Jesus Cristo”.

Só depois de escutar toda a gravação, saía e, ainda emocionado, meditava sobre a vida de Cristo. Hoje, senti falta do banco aconchegante da Kombi de seis portas, da rádio Uirapuru e da sua programação voltada para o dia da Paixão. A tristeza ainda foi maior por, vasculhando o dial do meu rádio, não encontrar quase nada alusivo à data.

Fui, então, pesquisar na internet e, para a minha alegria, descobri que a Rádio Nacional do Rio de Janeiro reapresenta “A Vida de Nosso Senhor Jesus Cristo” nesta Sexta-feira Santa, a partir das 19h em 1130 kHz AM e no site das Rádios EBC. Vou terminar logo a crônica para me emocionar durante a noite.

A radionovela foi ao ar em primeira edição no dia 27 de março de 1959, pela mesma emissora e anualmente era reproduzida durante a Semana Santa por um grande numero de prefixos. Radiofonizada por Giuseppe Ghiaroni, “A Vida de Nosso Senhor Jesus Cristo” foi um marco e reuniu quase uma centena de artistas para interpretarem as vozes dos personagens bíblicos.

Quem já teve a oportunidade de escutar, não esquece a belíssima sonoplastia, as músicas e a voz inconfundível de César Ladeira na narração e a locução de Aurélio Andrade e Reinaldo Costa. A radionovela também é pontuada por “Marcellus returns to Capri” da trilha sonora de O Manto Sagrado (The Robe, 1953) de Alfred Newman.

A Sexta-feira Santa continua sendo, para mim, o dia do silêncio e da adoração, dia no qual se medita com a Via-Sacra a Paixão de Cristo e se repercorre com Jesus o caminho da dor que leva à sua morte, uma morte que, sabemos, não é para sempre.

Na liturgia não há canto, não há música e não se celebra a Eucaristia, porque todo o espaço é dedicado à Paixão e à morte de Jesus. Ajoelhamo-nos, para simbolizar a humilhação do homem terreno e a coparticipação no sofrimento do Senhor. Porém, não é um dia de luto, mas um dia de contemplação do amor de Deus que chega a sacrificar o próprio Filho, verdadeiro Cordeiro pascal, para a salvação da humanidade.

Para terminar, digo que mesmo sem a Kombi e a radionovela, no momento em que estou terminando de escrever, uma paz muito grande toma conta do meu ser. Acho que as lembranças e as orações do dia com minha querida Marcilia me fizeram crer que Deus, na sua infinita bondade, está a nos proteger e que, no final, tudo vai dar certo. Tenham fé!

Amanhã eu volto com uma nova crônica.
Este foi o dia nº 22. #FiquemEmCasa

Arruda Bastos é médico, professor universitário e presidente da Sociedade Brasileira de Médicos Escritores (SOBRAMES-CE)

Arruda Bastos
Médico, professor universitário dos cursos de Medicina e Enfermagem, especialista em Gestão em Saúde e Saúde Pública, escritor, radialista, ex-Secretário da Saúde do Estado do Ceará e coordenador do Movimento Médicos pela Democracia.
http://www.portalarrudabastos.com.br

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