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Diário de uma quarentena 24° dia. Coelhinho da Páscoa, o que trazes pra mim? Por Arruda Bastos

Diário de uma quarentena (24° dia)
Coelhinho da Páscoa, o que trazes pra mim?
Por Arruda Bastos

O isolamento social e a Páscoa nos levam a lembranças de momentos da nossa vida, mesmo que os fatos tenham acontecido na infância e já estejamos “dobrando o Cabo da Boa Esperança”.

Para os que não conhecem essa expressão popular, “dobrar o cabo da boa esperança” é atribuída às pessoas que viveram intensamente, vencendo as adversidades, e que chegaram a um estágio da vida com certa idade e muita experiência.

Essa expressão foi inspirada nas dificuldades que tiveram os portugueses em contornar o Cabo da Boa Esperança no extremo sul da África, na época dos descobrimentos, à procura de alcançar o tão sonhado caminho para as Índias. O esforço foi sobre-humano para a esquadra do navegante Bartolomeu Dias.

Embora ainda esteja nesse estágio de vida, nessa manhã acordei lembrando-me de fatos longínquos da minha infância ligados à Páscoa. Recordo que, no jardim de infância, que fiz no Colégio Juvenal de Carvalho das irmãs Salesianas aqui em Fortaleza, fui coelhinho da Páscoa por um dia.

Como instituição religiosa, o colégio tinha uma programação toda especial para a Semana Santa. Na época, idos da década de sessenta, as missas eram diárias e as professoras leigas e as irmãs competiam entre si para apresentarem para a Madre Superiora a melhor participação dos seus alunos.

A minha professora era a irmã Paula que, com seu hábito impecável todo preto e, em outras vezes, reluzente de cor branca, me impressionava. Naquele tempo, o hábito era o tradicional, com touca que emoldurava o rosto e até cobria as orelhas, uma longa veste, meias, sapatos fechados e um cinto de tecido segurando o rosário. Daí o ditado popular “mais escondido que orelha de freira”.

Voltando à Páscoa, naquele ano, graças aos meus dotes artísticos, fui escolhido para representar a turma como personagem principal da peça infantil da Páscoa que foi encenada no auditório, para todo o colégio.

Como coelhinho da Páscoa, tive que vestir uma fantasia completa com orelhas, rabinho e tudo mais. Além da vestimenta, tinha que dançar e declamar “Coelhinho da páscoa, o que trazes pra mim? / Um ovo, dois ovos, três ovos assim / Coelhinho da páscoa, que cor eles têm? / Azul, amarelo, vermelho também”.

No final da minha performance, foi uma apoteose, sendo, então, aplaudido de pé, episódio que, sem dúvida, marcou para sempre aqueles dias de inocente criança no Juvenal e foi o responsável pelo meu desembaraço em falar em público para grandes multidões, fato que facilitou as minhas inúmeras campanhas políticas.

Mas a história do coelho não termina por aí, pois alguns anos depois, em uma festa de carnaval, o coelhinho ressurgiu lépido e fagueiro em um baile do Clube General Sampaio da Avenida da Universidade. Acho que isso aconteceu uns dois anos depois da minha estreia como ator. A fantasia, que estava guardada, como seria natural, quase não me cabia e teve o seu fechecler fechado a força, pois era o único traje carnavalesco que tinha.

A festa transcorria animadamente e meu saudoso tio Quelé, que nos levou ao baile, incentivou-me a cair na folia, mesmo com o desconforto da roupa. Resolvi, então, quando a animada bandinha iniciou a musica “A marcha da cueca”, cair na folia e ensaiar minhas primeiras voltas no salão.

Qual não foi minha surpresa quando senti que os foliões passaram a puxar partes da minha fantasia. Primeiro, arrancaram o rabo, depois, as orelhas, e assim as outras partes também. O certo é que depois de algumas voltas e antes dos acordes finais da marchinha com o tradicional “Eu mato, eu mato / Quem roubou minha cueca / Pra fazer pano de prato”, eu estava só de cueca.

Essa minha crônica de hoje representa muito bem as voltas que o mundo dá. Passei de ator de sucesso na Semana Santa encarnando o coelhinho da páscoa a uma pobre criança envergonhada no carnaval de dois anos depois.

O importante é encarar e, sempre que cair, levantar, sacudir a poeira e dar a volta por cima. E foi assim que eu fiz na época e que vamos, todos unidos, fazer agora na pandemia do coronavírus.

Para concluir, transcrevo três mensagens de páscoa, a primeira que diz: Uma prova de que Deus está conosco não é o fato de nunca cairmos, mas sim o fato de sempre levantarmos. A segunda, que nos faz pensar no espírito da Páscoa: O maior poder de Jesus não é ressuscitar os mortos, e sim ressuscitar os vivos. E a terceira que nos remete ao momento de solidariedade atual: Páscoa é ajudar mais gente a ser gente, é viver em constante libertação, é crer na vida que vence a morte. Páscoa é renascimento, é recomeço, é lutar por um mundo melhor e mais solidário. Que a alegria da ressurreição de Cristo esteja em seu coração hoje e sempre independe das dificuldades.

Feliz Páscoa!

Amanhã eu volto com uma nova crônica
Este foi o dia nº 24. #FicamEmCasa

Arruda Bastos é médico, professor universitário e presidente da Sociedade Brasileira de Médicos Escritores (SOBRAMES -CE).

Arruda Bastos
Médico, professor universitário dos cursos de Medicina e Enfermagem, especialista em Gestão em Saúde e Saúde Pública, escritor, radialista, ex-Secretário da Saúde do Estado do Ceará e coordenador do Movimento Médicos pela Democracia.
http://www.portalarrudabastos.com.br

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