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Entrevista com Arruda Bastos. Colapso na saúde de Fortaleza

Em maio, Fortaleza pode chegar ao ponto de escolher quem vai ser atendido ou não nos hospitais, diz ex-secretário da Saúde; vídeo – Viomundo

Da Redação, com produção de Luiz Regadas

Ele foi Secretário da Saúde do Ceará durante, é professor universitário, presidente da Sociedade Brasileira de Médicos Escritores do Ceará e hoje coordena o curso de pós-graduação em gestão em Saúde do Centro Universitário Unichristus, em Fortaleza.

O doutor Raimundo Arruda Bastos era secretário estadual quando o H1N1 chegou ao Brasil, ao mesmo tempo em que o hoje deputado federal Osmar Terra ocupava cargo equivalente no Rio Grande do Sul.

Arruda acompanha de perto os esforços das autoridades do Ceará para enfrentar a pandemia.

Do boletim epidemiológico da Prefeitura de Fortaleza
Um único bairro nobre de Fortaleza, Meireles, concentra mais casos que vários estados brasileiros. Havia 163 casos oficialmente registrados no bairro até domingo.

Meireles é apontado como o hot spot de onde a epidemia se alastrou, lotando as UTIs da capital e chegando longe: já houve morte em Tianguá, município que fica a mais de 300 quilômetros de Fortaleza.

Na capital cearense, um dado chama atenção: 26% dos óbitos na cidade foram de pessoas entre 20 e 59 anos de idade.

Para Arruda Bastos, uma das falhas da contenção da pandemia no Brasil foi o governo federal não ter permitido que o governo do Ceará fizesse o monitoramento de vôos que chegaram da Europa.

Esse direito só foi garantido por decisão judicial.

“A postura adotada pela ANVISA parece não atender a um efetivo exercício de vigilância sanitária e epidemiológica quanto ao fluxo de passageiros que desembarcam em aeroportos, maxime considerando o estágio atual de pandemia. A omissão é patente, revelada na própria ausência de resposta aos expedientes mencionados na inicial”, escreveu o juiz na sentença.

Disseminação em Fortaleza
Fortaleza tem intensa relação de turismo com a Europa.

Hoje, em entrevista coletiva, o ministro da Saúde Luiz Henrique Mandetta disse que não aceitou a demissão do secretário de Vigilância em Saúde, Wanderson de Oliveira.

O dr. Arruda Bastos acredita que uma troca no ministério, agora, seria o “caos”.

Durante a coletiva, Mandetta sugeriu que vem sendo criticado pelo deputado federal Osmar Terra, que defende o relaxamento do isolamento social.

Arruda Bastos costuma questionar as teorias de Osmar Terra no twitter.

Para o gaúcho, o Brasil deveria deixar a pandemia seguir seu curso natural.

Arruda Bastos diz que a teoria de Terra, de que a pandemia de coronavírus é comparável à do H1N1, é equivocada, por causa da rapidez de disseminação e da taxa de letalidade do novo vírus.

O médico aplaude a decisão do prefeito de Fortaleza e do governador do Ceará, respectivamente Roberto Cláudio (PDT) e Camilo Santana (PT), de empregarem força policial para aumentar o índice de isolamento social em bairros da periferia da capital.

O isolamento social, que teve início com adesão de 75% da população de Fortaleza, está hoje em 55%.

Na opinião do ex-secretário, aumentar esta taxa nos próximos dias é essencial.

“Proporcionalmente, temos mais casos que São Paulo, Rio de Janeiro e Brasília, estamos rivalizando com Manaus”, afirma.

Ele prevê que o pico da pandemia será entre o final de abril e a primeira semana de maio.

A situação pode chegar ao ponto de forçar hospitais a escolher quem será atendido ou não, como aconteceu na Itália.

Naquele país, a escolha se deu entre pacientes graves que teriam ou não acesso a respiradores.

Nesta quarta-feira, 15 de abril, o Ceará teve o maior aumento do número de casos desde o início da pandemia: 221.

São, agora, 2.291 casos, com 124 mortes.

Abaixo, a íntegra da entrevista:

Impressionante
Trecho transcrito:

Doutor, o secretário da Saúde [do Ceará] disse que a situação está próxima de colapsar, o que significa isso no popular, o que é o colapsar do sistema de saúde…

É um prazer conversar com você, apesar da situação difícil que nós estamos vivendo, mas colapsar é o seguinte: ter um número maior de pacientes do que a estrutura para atender.

Esta é a dificuldade, então o que o secretário Dr. Cabeto falou ontem para os empresários da construção civil… ele abriu realmente o jogo e falou da situação em termos de crescimento do número de casos, do crescimento do número de óbitos e da estrutura que o Estado tem já pronta para atender a pandemia.

O que está faltando dr. Arruda, o que falta de essencial neste momento…

Eu fui secretário da Saúde aqui do Estado também, passei oito anos na Saúde quando o governador era o Cid Gomes, eu conheço toda a estrutura da Secretaria da Saúde aqui do Estado.

O governador [Camilo Santana] foi ágil em adquirir um hospital privado e colocar à disposição da covid, com 208 leitos. O prefeito [Roberto Cláudio] iniciou um hospital de campanha dentro do estádio Presidente Vargas, para 208 leitos.

A secretaria da Saúde começou a construir também hospitais de campanha anexos aos hospitais grandes do Estado, hospitais terciários, Hospital Geral, Hospital de Messejana, Hospital Infantil Alberto Sabin, Hospital César Cals.

O governador também partiu para o interior ampliando os hospitais regionais, Hospital Regional de Sobral, Hospital Regional do Cariri em Juazeiro do Norte, Hospital Regional do Sertão Central em Quixeramobim.

Mas essas estruturas necessitam de equipamentos que estavam para chegar, principalmente para ampliar leitos de UTI, e também de tempo para ficarem totalmente prontas e as equipes formadas.

Então, quando o governador no dia 18 de março decretou aqui a nossa quarentena do Estado, foi uma das mais radicais do Brasil, proibindo inclusive indústria de funcionar, comércio totalmente, shoppings, reuniões, foi muito radical, nós tivemos uma aceitação de quase 75 a 80% nos dias subsequentes.

Dia 19 era feriado de São José aqui no Ceará, Padroeiro do Estado, era uma sexta, sábado e domingo foi uma adesão total, mas a partir da outra semana nós tivemos uma redução deste número e hoje estamos oscilando entre 50 e 55%, isso então prejudicou muito a programação que o Estado tinha, que a Secretaria da Saúde do Estado e do município aqui da Capital, retardamos em uns 20 dias o pico dessa curva, mas nós precisaríamos retardar mais.

O que o secretário tem dito: precisamos de EPIs, temos deficiência desse material, não é só o Ceará, praticamente o Brasil todo, e ele coloca como se o estoque do Ceará dê aí para mais uma semana, se não tiver um reforço substancial do Ministério da Saúde, de outros estados e de compras que o governo agilizou.

Ele [secretário] falou de uma compra que acabou não se concretizando. De que país foi ou foi aqui no Brasil mesmo?

O secretário falou de uma compra — como vários estados também tentaram — adquirir respiradores, principalmente na China, e que isso não conseguiu concretizar, porque as empresas não tiveram como atender os contratos. Então, isso prejudicou. Nós recebemos do Ministério da Saúde, agora nessa semana — tanto o Ceará como o Amazonas — o quantitativo de 30 respiradores a mais, fora o que o Estado tinha adquirido anteriormente a essa crise toda, mas isso não é suficiente. Então, o sistema pode colapsar por ter número maior de pacientes graves, que necessitam de leito de UTI.

Arruda Bastos
Médico, professor universitário dos cursos de Medicina e Enfermagem, especialista em Gestão em Saúde e Saúde Pública, escritor, radialista, ex-Secretário da Saúde do Estado do Ceará e coordenador do Movimento Médicos pela Democracia.
http://www.portalarrudabastos.com.br

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