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Imprimir dinheiro é uma péssima ideia. Por José Maria Philomeno

É inconteste a urgente necessidade do aporte de recursos públicos extraordinários para fazer face à premência de avigorar as estruturas e meios de assistência médica. Como, também, no combater aos deletérios efeitos econômicos provocados pela atual pandemia do coronavírus, que englobam tanto o auxílio à entes públicos (Estados e municípios), aos micro e pequenos empreendedores, mas, em especial, às dezenas de milhões de desalentados, informais e desempregados, que restam em estado de extrema carência e necessidade.

Neste sentido, estimam-se gastos adicionaissó no âmbito do Tesouro Federal em quase R$ 800 bilhões.  E a pergunta que se faz é: de onde virá tanto dinheiro para cobrir este mirabolanterombo?

O caminho inexoravelmente passa pela emissão de novos títulos públicos pelo governo. O problema é que esse espantoso volume de emissão, aliado à acentuada queda na atividade econômica, elevaria substancialmente o nível de endividamento público, que passaria dos atuais 75,6% para próximo a 90% do PIB. Revertendo todo um esforço empreendido nos últimos anos em reduzi-lo, o que permitiu, entre outros benefícios, a redução da taxa básica de juros para o patamar mais baixo da história (3,75%), e a manutenção dos índices inflacionários abaixo de 4% a.a.

Criaríamos, portanto, condições muito mais adversas para trilhar o caminha da recuperação após o fim da pandemia.

Sem contar o fato de que muitos, como o ex-presidente do Banco Central e atual secretário da Fazenda do Estado de São Paulo, Henrique Meireles, entendem ser, no atual estágio de crise global, inviável a absorção deste volume de títulos pelo mercado, defendendo, assim, que o governo também imprima papel moeda para injetar diretamente na economia.

O argumento de Meireles, de que a profunda retração da demanda inibiria qualquer efeito inflacionário, ignora o fato de que o processo inflacionário é multifatorial e que suas causas não se limitam a uma simples relação entre demanda e oferta.            

Esquece que o descompasso entre a liquidez (dinheiro circulando na economia) e a produção de riqueza é a principal fonte da inflação. Dinheiro não é um bem, apenas um meio para facilitar as trocas na economia – na antiguidade foi utilizado o sal (daí o nome salário), metais, até se implantar a moeda. De nada adianta o dinheiro sem os bens e serviços produzidos pela economia. Sem ter-se o que comprar as cédulas de dinheiro nenhum valor teriam.

Portanto, se mantivermos essas as medidas de restrição da atividade econômica, que tem reduzido a produção e oferta de bens e serviços, a injeção de mais dinheiro em circulação só causaria a majoração acentuada dos preços.

Passamos décadas sofrendo com a hiperinflação que desorganizava toda a economia e corroía o poder de compra de nossos rendimentos, principalmente dos mais pobres que não dispunham de mecanismos de proteção. A inflação foi um câncer que nos castigou, mas que bravamente extirpamos. A ‘ilusão milagrosa’ da impressão de dinheiro é como uma maça envenenada. Não caiamos nessa tentação.  

José Maria Philomeno é advogado e economista

 

pab

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