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Diário de uma quarentena (35° dias). No tempo da brilhantina. Por Arruda Bastos

Diário de uma quarentena (35º dia)
No tempo da brilhantina
Por Arruda Bastos

Ao acordar no dia de hoje, encontrei no pé da cama uma chinela havaiana. De imediato lembrei-me de uma propaganda que passava na televisão Semp Toshiba da casa do meu pai quando eu era criança. O reclame dizia que ela era a única alpargata que não tinha cheiro e nem soltava as tiras.

Recordo que, na época, eu usava mesmo era a genérica e ela tanto soltava as tiras quanto era meio fedorenta. As tiras, quando soltavam, eu dava um jeito colocando um grampo de cabelo de uma das minhas irmãs; o cheiro não tinha mesmo como resolver e, por mais que Atá, que também nos criou, usasse Seiva de Alfazema e passasse talco Cashmere Bouquet com a pluma da minha mãe, não tinha jeito.

No continuar do dia, quando passei a escrever, só me vinha à mente coisas antigas. O teclado do meu computador Dell se transformou em uma máquina de escrever Olivette lettera, o meu Iphone 8 Plus virou, de repente, um gravador K7 Gradiente que mamãe comprou na Lobrás da praça do Ferreira, ao lado do abrigo Central.

Com tanta nostalgia, pensei que estivesse ainda sonhando. Levantei e fui lavar o rosto. Chegando ao banheiro o caso piorou, pois a minha pasta colgate se transformou em uma gessy e encontrei também uma latinha de pomada minancora que usava para tratar as espinhas quando estava ficando adolescente.

Resolvi, então, trocar de roupa para fazer um pouco de exercício, na esperança de voltar ao normal. Entretanto, no closet só encontrei uma calça Lee Faroeste boca de sino e umas blusas de gola rolê. O tênis nike sumiu e no seu lugar descobri um velho “conga” e um Vucabrás 752. O pior é que acho que o mal passou para Marcilia, pois na parte dela do closet vi uma saia plissada xadrez azul e uma blusa de banlon amarela.

Pensando que era hipoglicemia, fui comer alguma coisa na cozinha. Lá chegando senti que o caso era mais grave do que eu pensava, pois encontrei no lugar da Brastemp uma geladeira Frigidaire contendo uma jarra de Q-Suco de morango, uma garrafa de Grapette, uma de Crush e outra de guaraná Taí.

Com tantos pensamentos desencontrados, fui à farmácia daqui de casa para me medicar. Chegando no armário onde guardamos alguns medicamentos, tamanha foi a minha surpresa quando encontrei um vidro de Emulsão de Scott, outro de Biotônico Fontoura e um tubinho de pílulas de vida do Dr. Ross. Ainda bem que não me deparei com óleo de rícino, pois seria capaz de vomitar.

Depois de toda essa provação, não tive coragem de descer. Não só com medo do coronavírus, mas também com receio de não encontrar o meu Compass e o Honda da Marcilia e sim no lugar a Vemaguet do tio Monteiro, o Gordine do Henrique ou o Jeep Willys 51 do Augusto.

Se você, meu leitor, conhece todos esses produtos, digo que está com uma excelente memória, mas, infelizmente, já pertence ao grupo de risco para Covid-19. É melhor ficar em casa e não facilitar, mesmo que um dia desse acorde perturbado como eu, hoje.

Para concluir e entrar de vez no clima, vou procurar uma edição da Revista Cruzeiro, ler um pouco da Seleções Do Reader’s Digest e depois do banho usar Lancaster, a brilhantina Glostora, pomada Trim e o gel Gumex. Com toda essa belezura e com os poucos cabelos devidamente bezuntados, vou ajeitar a cabeleira usando meu pente Flamingo. Recordar é viver!

Amanhã eu volto com uma nova crônica.
Essa foi a do dia 35. #FiqueEmCasa

Arruda Bastos é médico, professor universitário e presidente da Sociedade Brasileira de Médicos Escritores – SOBRAMES – CE.

Arruda Bastos
Médico, professor universitário dos cursos de Medicina e Enfermagem, especialista em Gestão em Saúde e Saúde Pública, escritor, radialista, ex-Secretário da Saúde do Estado do Ceará e coordenador do Movimento Médicos pela Democracia.
http://www.portalarrudabastos.com.br

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