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Diário de uma quarentena (86º dia) A quarentena, o relógio e o dia dos namorados. Por Arruda Bastos

Hoje, 12 de junho de 2020, completo meu octogésimo sexto dia de quarentena e comemoro, ainda em isolamento social, os meus 47 anos de namoro e 41 anos de casado com minha querida esposa, Marcilia. A expectativa inicial era de poder comemorar com a família, mas infelizmente os números de casos de covid-19 continuam subindo e o distanciamento ainda se faz necessário.

Ontem, como estava exausto, dormi cedo, o que me fez acordar ainda na madrugada. Olhei para o relógio e ele marcava duas horas e trinta minutos. Resolvi, então, pegar o celular e escrever mais uma crônica do meu diário, essa especial, pois comemorativa do dia dos namorados e das bodas de seda do meu casamento.

Marcilia dormia como uma fada e, tendo um sono leve, eu não poderia fazer barulho. Levantei e da varanda vislumbrei a lua que, de forma manhosa com seus raios, iluminava nossa cama e aquele “corpo meigo e tão pequeno que tem uma espécie de veneno tão gostoso de provar”. Nos últimos três anos, acordei meu amor com: “O amor do eterno namorado” em 2017, “Seu amor me pegou” em 2018 e “O amor e nossas bodas de esmeralda” em 2019.

Olhei mais uma vez para o relógio e ele marcava duas horas e trinta minutos. Fechando os olhos recordei que a mesma lua que iluminava o nosso quarto tinha sido muitas vezes testemunha do nosso amor nesses quarenta e sete anos de feliz união. Poderia então utilizar a lua dos namorados como inspiração, mas o relógio, meu parceiro, me chamava atenção.

O silêncio da noite fazia o tempo passar mais rápido. O meu coração batia forte em tic tac lembrando um relógio antigo. À medida que os minutos passavam, recordava dos momentos felizes que vivemos, do nosso casamento, dos filhos, netos e agora das agruras desse isolamento como uma “Odisseia na terra dos vírus gigantes”, como escrevi no início da quarentena.

O relógio implacável marcava três horas em sua incontida caminhada para o amanhã. De tanto ver as horas, lembrei-me de uma música antiga do meu tempo de criança que dizia: porque não paras relógio, não me faças padecer. O resto da música não lembrava, então procurei na internet a letra completa. Agora o relógio marca três horas e vinte e sete minutos.

Depois de escutar a música no youtube, resolvi atender aos clamores daquele ativo marcador do tempo que olhava insistentemente do móvel a minha frente. O relógio, escolhi para coadjuvante da minha crônica, pois a minha amada Marcilia é a protagonista. Agora já beirávamos as quatro horas e Marcilia começava a superficializar o sono. Qualquer barulho ela acordaria. Deveria ter cuidado e terminar de escrever antes do primeiro beijo de aniversário.

Às quatro horas e quarenta, Marcilia começou a acordar linda e meiga, como sempre, e com aquele sorriso encantador. Nos beijamos e depois comecei a ler a crônica que passei a noite com o relógio a escrever. Coloquei também para tocar a música “Relógio” interpretada por Altemar Dutra (Versão em Castelhano) e dei mais um beijo apaixonado.

Para concluir, digo que o nosso amor é para sempre e não vai ser a pandemia, por pior que seja, que vai entristecer o nosso dia. Agora o relógio marca cinco e quinze, é o momento de mudar a música para o Kid Abelha, com Paula Toller.

Vou ficando por aqui, o restante eu conto no meu livro “Diário de uma quarentena” depois que tudo passar.  Agora é só love, só love.

 Arruda Bastos é médico, professor universitário e presidente da Sociedade Brasileira de Médicos Escritores – SOBRAMES – CE

pab

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